Na noite anterior ele ligou. Quis saber como as coisas estavam. Ela já tinha tinha arrumado tudo, iria partir às 8 da matina. No dia seguinte, ele ligou para dar bom dia. Ela já estava na rodoviária esperando o ônibus. Depois de meia hora, ele ligou de novo, apenas para saber se o ônibus tinha chegado. Ela já estava viajando há 15 minutos. Ao meio-dia ele ligou para saber se ela tinha almoçado. Ela estava esperando o segundo ônibus que pegaria, almoçou um sanduiche natural. 40 minutos depois, ele ligou para saber onde ela estava. Numa cidade próxima, faltavam 20 quilômetros. Em 30 minutos, ela chegou.
Em casa, ela dormiu um pouco, tomou banho e saiu. Ligou para ele. Já estava há uma quadra do mercado quando o viu de costas.
QP - Bela camisa, Noivo. - disse ela atravessando para o lado oposto da calçada do mercado.
Ele dava voltas ao redor de si mesmo, estava nervoso. - Onde você está?
QP - Estou chegando. Calma, estou chegando. Só que estou vendo você.
Noivo - Sim, mas onde você está?
QP - Estou aqui, Noivo. - Ela estava ali parada na frente dele, com o celular em punho.
Noivo - Ah, te vi. - Ele disse isso com um tom de alívio. - Espera aí que eu vou atravessar.
Ela o abraçou com força. Ele parecia desajeitado, não sabia o que dizer.
Noivo - Que mulher grande é essa? Ah, é o degrau do passeio.
QP - Tudo bem, eu posso descer para te fazer feliz. Porque homem tem essa coisa de ser mais alto do que a mulher? É algum daqueles ponto X na auto-estima masculina?
Noivo - Imagina, não tenho problema com isso. Vamos atravessar a rua?
QP - Sem problema.
Noivo - O que você vai fazer depois?
QP - Hum... Vou no salão fazer alguma coisa para salvar meu cabelo, ver uma amiga e comprar... - Falou alguma coisa inaudível.
Noivo - Comprar o quê?
QP - Ab... - Pronunciou o resto da palavra coçando o nariz.
Noivo - O quê?
QP - ... - Coçou o nariz de novo.
Noivo - Fala sem coçar o nariz, mulher. - Disse ele sorrindo.
QP - Preciso comprar absorvente. Que droga, você poderia ser discreto e fingir que não ouviu. Você não entende nada da alma feminina.
Noivo - Sorrisos... Porque não compra aí?
QP - Porque você não pode saber que eu menstruo ué. Simples assim. Homens só podem saber que menstruamos e temos TPM no terceiro mês de namoro, é a regra. Antes disso, tudo é felicidade. Essa é a regra.
Noivo - Ele deu uma risada espontânea. - Não sabia dessa. Então, é assim que funciona?
QP - Geralmente sim, mas essa é um daqueles conhecimentos que você só aprende com o tempo. Está vendo com você é uma pessoa sortuda?
Noivo - Sou mesmo... Espera aí, o que é isso que você tem na boca?
QP - O quê? Não comi nada.
Noivo - Está brilhando, o que é isso?
QP - Chama-se brilho labial, já ouviu falar?
Noivo - Mas está brilhando pra p...
Ela passou o dedo nos lábios tirando o gloss rapidamente, enquanto falava. - Poxa, que sacanagem...
Noivo - Deixa aí, está bonito.
QP - Foi sugestão da minha irmã, pô, eu nem costumo usar essas coisas. Sou perfeccionista, tá?
Noivo - Ele olhou para o lado e sorriu. - Está bonito, juro.
Ela deu dois tapas no braço dele. - Seu mentiroso! Não acredito mais em você.
Noivo - Podemos nos encontrar depois?
QP - A gente se vê por aí.
Noivo - Pode ser depois do expediente, às 6 da noite?
QP - Acho que sim , me liga, certo?
Noivo - Combinado.
Ele ligou duas horas depois para confirmar o horário e o local. Em duas horas deveriam estar em frente ao Banco do Brasil.
Ele estava lá pouco antes do horário marcado, deu duas voltas e sentou-se novamente para esperá-la.
Quando ela chegou, ele não demonstrou o mesmo nervosismo de antes. Estava calmo e parecia um pouco desanimado, talvez, pelo longo dia de trabalho. Para ela, o dia passou rápido entre unhas, cabelo, amigas e música.
Noivo - Porque você mudou seu cabelo?
QP - Olha, meu cabelo é uma personalidade acoplada em mim, ele é temperamental e tem vontade própria. Então, o ignore e se adapte a ele como eu faço. Certo?
Ele deu um sorriso desanimado. Ela sentou ao lado dele.
QP - Você parece cansado. Quer sentar em algum lugar ou andamos um pouco?
Noivo - Não, tudo bem. A gente pode andar e depois sentamos um pouco.
QP - Ok. Então vem. Ela disse ajudando-o a se levantar. - Vamos andar. Quero ver um condomínio que uma amiga me indicou. São apartamentos baratos e bonitos.
Noivo - Onde é?
QP - Perto do fórum, eu também nunca fui lá. São novos... pode ir comigo?
Noivo - É longe?
QP - Não faz pergunta difícil. Eu ainda não sei, se for a gente pode desistir no meio do caminho e volta.
Nivo - Pra que lado é?
QP - Quanta pergunta, Noivo. É pra lá. Olha, antes que você estranhe, se eu ficar aérea ou pensando demais no que falar, ou ainda falar alguma coisa em inglês é normal. Eu não estarei tirando onda com sua cara, juro. É que sou professora e falo inglês o dia todo. Às vezes eu me esqueço e falo inglês com não fala.
Noivo - Tudo bem, é o costume.
QP - É isso aí.
Seguiram em direção ao fórum, já na calçada, em frente às diversas lojas que viam, ele pediu.
Noivo - Posso pegar na sua mão?
QP - Olha até que pode, mas é que eu tenho um certo problema com esse negócio de pegar na mão. Eu fico brincando com a mão da pessoa, uma hora eu seguro um dedo, outra hora fico tamborilando os dedos... é uma loucura.
Ele sorriu e olho de lado. - Ótimo, não gosto de nada metódico.
Qp - Mas porque você quer pegar na minha mão? Geralmente são namorados que gostam de pegar na mão de suas namoradas e não somos namorados.
Noivo - Hum... bem, a gente pode namorar então. Que tal namorarmos por cinco dias?
QP - Não sou a favor. Aliás, eu nem sei ficar. Na minha época, ficar era beijar, abraçar e até dar amasso. Hoje ficar é beijar, apertar e transar é pegar, e rolo já é gíria do passado.
Noivo - A gente pode ir ficando, que tal?
Ela parou de repente. - Não sei se gosto da idéia; eu não sei fazer isso. Quer ver uma coisa? Me beija.
Ela achou que seria uma ótima oportunidade de deixá-lo sem graça e constatar a sua teoria de que ficar não era uma atitude sensata. Ele achou que era a melhor oportunidade que poderia ter para beijá-la. Ao chegar mais próximo ela falou algo confuso, falou e falou. Ele desistiu.
Noivo - Ah, você não quer nada.
QP - Olha só, que lindo. É uma boa, você não acha?
Ficaram conversando sobre apartamentos por um bom tempo. Ele deu a idéia.
Noivo - Vamos procurar algum lugar para sentar?
QP - Vamos sim. Mas onde?
Escolheram um dois bancos um de frente ao outro. Sentaram-se. Ele encostou o os cotovelos na perna, ela fez o mesmo.
Noivo - Você vai fugir, não é?
Ela sorriu. - Vou.
Então ele desistiu. Passou a falar do trabalho, da cidade das cidades que conhecia, das aventuras nas cidades que conheceu, dos amigos, da família, do trabalho de novo, da falta do que fazer nos dias sem trabalho, das loucuras do dia-a-dia, dos nossos vários eus e vocês. Estavam ali, sozinhos... ou quase.
Ela apoiou os cotovelos nas pernas, e o olhou. Ele fez o mesmo. Estavam perto, tão perto que poderiam ouvir a respiração do outro. ela abaixou a cabeça, ele fez o mesmo. A partir dali, as palavras não vinham. O silêncio dominou. Ela encostou a mão no rosto dele e rapidamente roubou-lhe um beijo. Ele retribuiu envergonhado. Não foi um beijo de ânsia, de paixão, ou de vitória. Foi um beijo tranquilo, de quem quer conhecer o outro.
os lábios não estavam mais unidos, mesmo assim, continuaram de olhos fechados e com os rostos colados.
Noivo - Porque você fez isso?
QP - Não era pra fazer?
Ele falou algo que ela não compreendeu pois logo ele encostou a mão no seu rosto e a beijou da mesma forma de antes.
O celular dela tocou. Ela precisou ir embora. Beijaram-se mais uma vez e desde então, não se viram mais.
segunda-feira, 29 de dezembro de 2008
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