sábado, 13 de dezembro de 2008

O noivo





Já era tarde. O dia cansativo a fez precisar de alguém para que pudesse reclamar um pouco da vida e buscar um fio de serenidade. Vasculhou alguns lugares e perto de onde estava encontrou alguém. Não era a primeira vez dela a aparecer ali. Estava de cabeça cheia e queria apenas distrair-se um pouco com o vai e vem das pessoas. Para ele, estar num lugar como aquele não era novidade, mas a escolha daquele lugar fôra inusitada.

Ele precisava arriscar, dizer um oi. Ela precisava ouvir algo doce.



Noivo - Um tostão por um dedo de prosa.

QP - Make two

Noivo - O quê?

QP - Nada. Disse com um pequeno sorriso nos lábios. - Até dois dedos... Você não é daqui, é?

Noivo - Não, cheguei na cidade ontem. Estou aqui a trabalho, você sabe, aquele novo mercado da cidade.

QP - Ah, sei.

Noivo - E você? É daqui?

QP - Morei aqui. Agora moro em outro lugar e de vez em quando venho aqui para rever alguns amigos. Já descobriu onde pode se divertir por aqui?

Noivo - Ainda não. Estou em um hotel que fica perto de onde estou trabalhando e não tenho tido muita oportunidade de sair. Por falar nisso, pode me sugerir algum lugar?

QP - Cidades pequenas têm disso, não existem muitas possibilidades. Se você não tem um grupo de amigos fica um pouco difícil, mas como as pessoas costumam ser hospitaleiras, você não deverá ter problemas com isso.

Noivo - Quando você voltará para essa cidade?

QP - Não sei, talvez volte a morar ou talvez não. Como disse, costumo visitar minha família e meus amigos daí vez ou outra.

Noivo - Será que você virá durante o tempo em que estou aqui?

QP - Não sei. Acho que sim, penso que não, acredito que não sei.

Noivo - Bom saber. E posso saber porque Quase Capitu?

QP - Você gosta de ler?

Noivo - Por isso estou perguntando.

QP - Já leu Dom Casmurro?

Noivo - Já.

QP - Certa vez um amigo disse que tenho olhos de ressaca. Bem, eu não acho mas ficou o apelido.

Noivo - Uau.

QP - E você? Deve viajar e todo instante, não?

Noivo - E como!

QP - Então deve estar acostumado a estar em cidades que não conhece ninguém.

Noivo - Acostumado não. Mas tem acontecido de eu chegar e sair de uma cidade sem conhecer ninguém. É difícil de fazer amizade em algumas cidades e olha que sou muito comunicativo. Tem cidades que em uma hora conheço um monte de gente. Aqui ainda não conheci ninguém, quer dizer, estou conhecendo a senhora agora.

QP - Não é difícil de se fazer amizade aí. Comece pelo pessoal do hotel e você vai longe.

Noivo - Um amigo meu está vindo, ele ficará por aqui também.

QP - Ótimo.

Noivo - O que você faz?

QP - Ora, então não se apoquente.

Noivo - Não se apo... o quê?

QP - Apoquente. Não esquente, vai dar tudo certo.

Noivo - É, sempre dá.

QP - Permita-me. Você tem jeito de caxeiro viajante, desses que deixa uma namorada a cada lugar que passa.

Sorriso. - Será? Nem dá tempo para me apegar a alguém, além do mais sempre aviso que não sou da cidade. O que você gosta de fazer no seu tempo livre?

QP - Ah, sei lá. Muitas coisas. E você?

Noivo - Tudo o que for divertido. Ontem por exemplo, fui num restaurante perto da loja, ele é legal.

QP - Deve ser novo, já que a loja deve ficar perto da Cesta do Povo.

Noivo - Cesta do Povo?

QP - É, Cesta do Povo. É um mercado do governo da Bahia.

Noivo - É bem pequeno?

QP - É.

Noivo - Achei que fosse uma farmácia!

QP - Cesta do Povo é muito popular na Bahia, é como Carla Perez. É um mercado que vende cesta básica mais barata do que os supermercados.

Noivo - Entendi. Você é entendida. Em que trabalha?

QP - Sou pedagoga e ensino. Ensino Inglês.

Noivo - Hum... Eu já fiz inglês, mas não levei muito a sério.

QP - Relaxa, ninguém leva. Era adolescente?

Noivo - Era.

QP - Qual é odolescente que leva o inglês a sério?

Noivo - Preciso ir. Posso te ver de novo?

QP - A gente se encontra...


Os dias passaram rápido. Ele foi no mesmo lugar no dia seguinte na esperança de que acontecesse algo; não sabia exatamente o quê, mas estava ali apenas a espera.
Ela sabia que iria acontecer algo. Sabia o quê e desejou ter calma de criança na primeira infância para não ultrapassar as fases.


QP - E aí, sem sono também?

Noivo - Que nada, estou sozinho.

QP - Você não me parece sozinho.

Noivo - Mas estou. E você?

QP - Diga-me uma coisa, qual a sua idade?

Noivo - 23. Na verdade 22.

QP - É só pensar que eu tenho um quarto de século e fico imaginando nas coisas que ainda preciso fazer.

Noivo - Falta muita coisa?

QP - Publicar um livro e ter um filho. A árvore já plantei.

Noivo - Uau, que bom.

QP - Deve ser legal viver assim de cidade em cidade...

Noivo - Quando eu me formei resolvi que queria conhecer o Brasil.

QP - Foi uma boa idéia, embora ache que você tenha um jeito de menino da mamãe e de baixinho.

Noivo - Mas eu tenho 1,78 m!

QP - Ué, eu também.

Noivo - Adoro mulheres altas...

QP - E eu adoro conversar com gente inteligente. O que você faz?

Noivo - Sou analista. Meu trabalho é basicamente...

QP - Não, não precisamos falar do seu trabalho, estou com preguiça de pensar. E então, me diz... tem o contume de dormir tarde ou está aqui só porque está sozinho?

Noivo - Depende. Se eu estiver em casa às 20 h. já estou dormindo, se eu não dormir até às 22 h. perco o sono mas costumo acordar às 7 ou 8 da matina. Se eu estiver com muito trabalho, acordo às 6 h.

QP - Entendi. Não seria mais fácil dizer que seu descanso depende da carga de trabalho?

Noivo - Ah, eu só queria explicar como era.

QP - Está tudo bem, não se preocupe. Você é o caçulinha, não é?

Noivo - Sou o mais velho dos homens.

QP - Você deve ser aquele em que precisa ser o que ninguém na família conseguiu ser.

Noivo - Diz o número da mega-sena?

QP - Não é muito difícil de chegar à essa conslusão.

Noivo - O que você é?

QP - Pedagoga. Daí já viu, sou um pouco de tudo! Sou enfermeira, professora, psicóloga, médica...

Noivo - Estou vendo. Você me conhece melhor do que eu mesmo. Quer casar comigo?

QP - Tem dinheiro para a empregada? Não vou ficar cozinhando e limpando, serei sua secretária particular.

Noivo - Já pago uma para a minha mãe, seria normal eu pagar uma para a minha casa, não?

QP - Ok, uma evolução. Números de celulares passarão pela minha averiguação até a segunda ordem.

Noivo - Sim senhora.

QP - Sorrisos... Acho que vai ser difícil encontrar alguém capaz de me suportar. Casamento está fora do meu caminho por mais uns quatro anos.

Noivo - Será? Toda panela tem sua tampa.

QP - Eu conheço a história do sapato torto também.

Noivo - Também não penso em me casar agora. Vou entrar em um projeto grande e vou passar cinco meses fora.

QP - Está me pedindo um tempo de cinco meses para pensar na sua proposta?

Noivo - Só se começar agora.

QP - Sabe o que é mais difícil encontrar em alguém hoje?

Noivo - Hum?

QP - Papo e cabeça.

Noivo - Minha cabeça é tão grande assim?

QP - Sorriso.... Não. É que a maioria das mulheres só pensam em sexo e não querem compromisso. E os homens vão pelo mesmo caminho.




Os dias passaram e o Noivo ligou. No dia seguinte ligou de novo e de novo. O vínculo e a curiosidade cresceu e os dois trocaram mais contatos, beijos e carícias depois de um tempo. O Noivo sumiu por uns dias e quando se falaram foi mais ou menos assim:


QP - Você não vai mais me ligar não é?

Noivo - Estou com tanto serviço por fazer que nem liguei para a minha mãe.

QP - Meu aniversário está próximo, vamos sair e encher a cara?

Noivo - Está louca? Você não bebe, esqueceu?

QP - Ah é, né? Que chato.


Sobre o noivado? Ah, ela terminou no terceiro dia de compromisso, mas ele não levou a sério. Ficou de se redimir. Ela pediu uma prova, algo como subir um prédio de 15 andares como o Homem-Aranha, jogar capoeira, plantar bananeira...

E o Noivo sumiu de novo. Ela também sumiu. E ficaram sumidos por um tempo. Depois o noivo apareceu novamente pensando em namoro e fazendo promessas. E no dia seguinte, os dois foram para casa.

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